domingo, 29 de dezembro de 2013

Trabalhador e Subjetividade


As dinâmicas sociais, políticas, ideológicas e culturais que se iniciaram pela crise mundial da década de 70, com a desregulamentação do sistema monetário internacional, os choques petrolíferos, fim da paridade do dólar com o ouro, desemprego, alta de preços e as históricas derrotas sindicais e políticas dos trabalhadores, por exemplo, nas eleições que levaram ao poder Margaret Thatcher em 1979, Ronald Regan nos EUA, os golpes militares na América Latina e no Brasil a eleição de Fernando Collor em 1989 são o ponto inicial dessa análise. 
Em 1989, após 200 anos dos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade da revolução francesa, vem abaixo o muro de Berlim, maior símbolo da divisão de poder da guerra fria, como consequência da política de Michail Gorbachov  na União Soviética, provocadora de grandes  mudanças no quadro geopolítico mundial, preparando o terreno para implantação de um novo modelo econômico.
Ainda em 1989, “coincidentemente”, acontece o Consenso de Washington, um conjunto de medidas, formulado por economistas do FMI,  Banco Mundial e Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, que se tornou a política oficial do FMI Internacional em 1990, para promover o "ajustamento macroeconômico" dos países em desenvolvimento que passavam por dificuldades, confirmando a partir daí a hegemonia norte americana, iniciada com a força das armas na segunda guerra mundial.
A partir da composição desse cenário, aliado às novas tecnologias, intensifica-se a ofensiva do capital, impondo processos de reestruturação produtiva nas grandes empresas, caracterizados pela desregulamentação e flexibilização do trabalho, tendo como medidas, por exemplo, a terceirização, redução de custo e postos de trabalho.

Um novo modelo de gestão de pessoas com planos de demissões, incentivos a aposentadorias, readequação de quadro, disponibilidade, transferência compulsória, nova nomenclatura no plano de carreira, etc., é imposto aos trabalhadores. O discurso muda. Não se diz mais trabalhadores assalariados, mas funcionários, escriturário, gerentes disso e daquilo, assistentes, colaboradores, etc., esvazia-se o discurso de classe. Exige-se do trabalhador atitudes proativas e propositivas capazes de torná-lo membro da equipe que visa a cumprir metas, “enquadrando-o” dentro de uma estrutura de dominação que o subjetiva, transformando-o num componente desumanizado de um organograma, transformando seu trabalho vivo em trabalho mercadoria, dando-lhe uma nova identidade, um crachá, um pertencimento, passando a empresa a ser o elo mais significativo, a acompanhar e ditar sua vida como um todo, corroendo sua autoestima e personalidade, reconstruindo novas formas de consentimento e passividade, tornando-o mais suscetível às imposições do capital, desviando sua percepção de classe (dessubjetivação) como trabalhador assalariado. Permitindo como contrapartida ao cumprimento de metas, na maioria das vezes abusivas, a participação no lucro e outros benefícios que não integram o salário para a aposentadoria e auxílio doença, por exemplo.

Observa Eric Hobsbawn, “a destruição do passado – ou melhor, dos mecanismos que vinculam nossa experiência pessoal às das gerações passadas – é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX.” Na verdade, a reestruturação capitalista, ocorrida no bojo da crise estrutural do capital, operou a destruição do passado implodindo a memória coletiva – e diga-se de passagem, coletivos sociais constituídos no decorrer das lutas de classes do tempo passado. Prossegue “quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem.” Por isso, a luta contra o capital é a luta contra o esquecimento.

Não se pode perder o senso de pertencimento, como na história do pastor que contratou um hipnotizador, fazendo com que suas ovelhas acreditassem ser outro animal, esquecendo sua consciência de classe, para que não resistissem quando o pastor levava uma de suas iguais para o matadouro. “Não sou ovelha”, diziam.

É difícil para o trabalhador, imerso nesse modelo de gestão, no dia-a-dia de uma empresa, perceber a subjetivação que o conforma, mas ao menos deve estreitar suas relações, buscar uma identificação com os seus, começando pela sindicalização.

Milton Porto - Espírito Santo

3 comentários:

Há de se lembrar da síndrome de Estocolmo. O sequestrado passa a defender o sequestrador, quem lhe oprime. O trabalhador também passa a defender seu sequestrador de subjetividade, colocando a empresa acima até de sua família.

Por isso é importante a consciência de classe. Assim os trabalhadores se enxergam enquanto iguais, pois passam pela mesma exploração. Desta forma atuamos pela transformação social tendo a classe trabalhadora com o principal pilar da mudança.

É necessário a conscientização deste trabalhador neste contexto de exploração.Sendo a sua voz "a luta de classe", através da participação sindical, a luta pela coletividade. Superar a visão desta subjetividade cooptada pela ideologia do empregador e lutar por justiça e direitos.

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