quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Apenas oito homens têm renda maior que a metade mais pobre do mundo




Um novo relatório da Oxfam, divulgado nesta segunda-feira (16), revela que a distância entre o 1% e os 99% da humanidade, respectivamente, o topo e a base da pirâmide da riqueza mundial, torna-se cada vez maior, com consequências desastrosas para a humanidade.
 
Baseado no Credit Suisse Wealth Report 2016 e na lista de milionários da Forbes, o relatório alerta que apenas oito homens concentram a mesma riqueza do que as 3,6 bilhões de pessoas que fazem parte da metade mais pobre da humanidade. Na última camada, uma em cada 9 pessoas vive abaixo da linha da pobreza, buscando sobreviver com menos de U$ 2 por dia.

Intitulado “Uma economia humana para os 99%”, o relatório foi apresentado na véspera da abertura do Fórum Econômico Mundial, que tem início no dia de hoje, na cidade suíça de Davos, que reúne os representantes das empresas mais ricas do mundo.

Os oito primeiros colocados na lista da Forbes são o criador da Microsoft, Bill Gates (75 bilhões de dólares), Amancio Ortega (67 bilhões), da grife espanhola Zara; Warren Buffet (60,8 bilhões), da Berkshire Hathaway, Carlos Slim (50 bilhões), das telecomunicações e Jeff Bezos (45,2 bilhões), da Amazon. Figuram ainda o fundador do Facebook, Mark Zuckerberg (44, 6 bilhões), Larry Ellison (43,6 bilhões), da Oracle, e, por fim, Michael Bloomberg (Bloomberg LP), com 40 bilhões.

A Oxfam também analisou a riqueza de 1.810 bilionários incluídos na lista Forbes 2016, 89% dos quais são homens. Em seu conjunto, eles possuem 6,5 trilhões de dólares, a mesma riqueza que 70% da população mais pobre da humanidade. Um terço desse patrimônio tem origem na riqueza herdada, enquanto 43% está ligado a relações clientelísticas. Essa riqueza cresce a uma média de 11% ao ano desde 2009, taxa muito superior à de um poupador médio. “Os super-ricos não são apenas receptores passivos da crescente concentração de riqueza, mas contribuem ativamente para perpetuá-la”, diz o relatório, por exemplo, por meio de seus investimentos. Os mais poderosos da sociedade controlam a maioria das ações, o que os torna os principais beneficiários do atual modelo empresarial, gerando um efeito multiplicador de riqueza para os já super-ricos.

Nas próximas duas décadas, 500 indivíduos passarão mais de 2,1 trilhões de dólares para seus herdeiros, uma soma maior do que o PIB de um país como a Índia, que tem 1,2 bilhão de habitantes.

Esse quadro sombrio é visível em todas as partes do mundo. No Vietnã, por exemplo, o homem mais rico do país ganha em um dia mais do que a pessoa mais pobre em 10 anos. Nos Estados Unidos, de acordo com um estudo realizado pelo economista Thomas Piketty, a renda dos 50% mais pobres da população foi congelada nos últimos 30 anos, enquanto a do 1% mais rico aumentou em 300%. A soma dos salários anuais de 10.000 trabalhadores das fábricas têxteis de Bangladesh equivale ao salário do CEO de qualquer empresa incluída no FTSE 100, índice da Bolsa de Valores de Londres, de acordo com estimativas da Ergon Associates.

No Brasil, a realidade não é diferente. Os 6 maiores bilionários concentram a mesma riqueza que mais de 50% da população – um total de mais de 100 milhões de pessoas.

A Oxfam aponta especialmente as grandes empresas, acusadas de estarem “a serviço dos mais ricos” e de se guiarem por um único objetivo: maximizar a rentabilidade de acionistas e investidores. Em 2015, as dez maiores empresas do mundo obtiveram um faturamento superior à receita total dos Governos de 180 países. No entanto, esse crescimento não foi distribuído entre todas as camadas da sociedade.

A renda de altos executivos, frequentemente engordada pelas ações de suas empresas, tem aumentado vertiginosamente, ao passo que os salários de trabalhadores comuns têm diminuído.

O estudo aponta que, atualmente, o diretor executivo da maior empresa de informática da Índia, o CEO, ganha 416 vezes mais que um funcionário médio da mesma empresa.

Para diminuir custos, algumas empresas recorrem ao trabalho forçado ou em condições de escravidão. As mulheres e as meninas são exploradas nas condições mais precárias e são a categoria pior remunerada. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que 21 milhões de trabalhadores forçados geram cerca de US$ 150 bilhões em lucros para empresas, todos os anos.

Além disso, os altos lucros das empresas são maximizados pela estratégia de pagar o mínimo possível em impostos, utilizando para este fim paraísos fiscais ou promovendo a concorrência entre países na oferta de incentivos e tributos mais baixos.

“As alíquotas fiscais aplicadas a pessoas jurídicas estão caindo em todo o mundo e esse fato – aliado a uma sonegação fiscal generalizada – permite que muitas empresas paguem o menos possível em impostos”, afirma o documento.

Estima-se em 14 bilhões de dólares por ano os prejuízos na África resultantes da utilização de paraísos fiscais pelos bilionários. A Oxfam calcula que esse montante seria suficiente para garantir cuidados de saúde e salvar a vida de quatro milhões de crianças por ano, ou para permitir a escolarização em todo o continente. O uso de paraísos fiscais provoca prejuízos anuais de ao menos 100 bilhões de dólares para os países em desenvolvimento.

Além disso, há a obsessão em manter no mais alto patamar os retornos financeiros para os acionistas das empresas. Na década de 1970 no Reino Unido, por exemplo, 10% dos lucros eram distribuídos aos acionistas. Hoje, o percentual é de 70%.

Pesquisas citadas pelo relatório da Oxfam também revelam como o 1% beneficia-se da distribuição desigual da riqueza e utilizam-se de sua influência material e política para continuar a gozar de tal benefício.

Entre os artifícios utilizados estão o financiamento de candidaturas políticas, da atividade de lobby e, indiretamente, o custeamento de centros de estudos e universidades que visam produzir “narrativas políticas e econômicas” compatíveis com as premissas que favorecem os ricos.

“Os bilionários do Brasil fazem lobby para reduzir impostos e, em São Paulo, preferem usar helicópteros para ir ao trabalho, evitando os engarrafamentos e problemas de infraestrutura enfrentados nas ruas e avenidas da cidade”, diz o documento.

A Oxfam alerta que a crescente desigualdade produz efeitos catastróficos nas sociedades, aumentando a criminalidade, a insegurança e, ao mesmo tempo, minando iniciativas de combate à pobreza. “Ela (a desigualdade) gera mais pessoas vivendo com medo do que com esperança”, conclui a organização.

Ao longo dos últimos 25 anos estudos realizados pela Oxfam revelam que “Se o crescimento econômico entre 1990 e 2010 tivesse beneficiado os mais vulneráveis, hoje teríamos 700 milhões a menos de pessoas, a maioria mulheres, na pobreza”, salienta o relatório.

Esse modelo econômico, aponta o relatório, é baseado numa série de falsas premissas, entre as quais está a ideia de que a riqueza individual extrema não é prejudicial, mas um sintoma de sucesso, ou que o crescimento do PIB deve ser o principal objetivo da elaboração das políticas. As premissas equivocadas incluem acreditar que os recursos do planeta são ilimitados ou que o atual modelo econômico é neutro do ponto de vista do gênero.


Emerson Lira

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